Centenário de Nelson Cavaquinho inspira enredo da Mangueira e CD-tributo

O cantor e compositor Nelson Cavaquinho em apresentação no Teatro Opinião, em São Paulo, em 1982Em "Quando Eu Me Chamar Saudade", um de seus tristíssimos sambas, Nelson Cavaquinho (1911-1986) dizia preferir receber "as flores em vida". Que depois da morte e do tempo passado, ele acabaria esquecido. "Por isso é que eu penso assim: se alguém quiser fazer por mim, que faça agora."
Ao que parece, o Brasil levou o pedido a sério. No centenário de nascimento do autor de clássicos como, entre tantos, "Luz Negra", "A Flor e o Espinho", "Juízo Final", "Palhaço", "Folhas Secas" pouca coisa está sendo planejada em seu nome.
São raras as exceções.
A mais importante vem da Estação Primeira de Mangueira, escola do compositor, que dedica a ele o enredo deste ano: "O Filho Fiel, Sempre Mangueira".
Também perto do Carnaval sai um álbum com gravações inéditas de sua obra por 20 artistas da MPB.
Organizado pelo produtor Thiago Marques Luiz para a pequena Lua Music, vai reunir sambistas (Beth Carvalho, Alcione, Fabiana Cozza, Lecy Brandão, Teresa Cristina, Benito di Paula) e cantores de outros universos (Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Ângela RoRo, Cida Moreira).
"Ninguém ainda se debruçou sobre Nelson Cavaquinho como ele mereceria", diz Paulinho da Viola. "Pode haver um livrinho ou outro, mas nada que conte um décimo do que foi a vida dele."
Antes de conhecer Nelson pessoalmente, em meados dos anos 1960, Paulinho sabia de suas músicas e do "folclore" em torno de sua figura.
Algo que ele chama de "comportamento libertário, desprendido de muitas regras sociais sob as quais todos nós vivíamos". "Era o verdadeiro hippie", conclui.
Parceiro de Nelson e seu amigo até o fim da vida, Eduardo Gudin concorda com o adjetivo. "Sim, ele era hippie. Vivia o momento. Era uma pessoa muito simples, quase infantil em alguns aspectos. Intuitivo, um violão muito bruto. E saíam melodias dignas de Tom Jobim."
Gudin aponta a vaidade como outra característica do compositor. Lembra das vezes em que o levou à rodoviária, às 5h30 da manhã, "para pegar o [ônibus] Cometa de volta ao Rio".
"Ele cumprimentava o motorista: 'Ô, menino, não está me conhecendo? Nelson Cavaquinho! E aqui está Eduardo Gudin, que também grava na Odeon'. Ele sentia que, onde chegava, as pessoas o viam como uma entidade."

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